alho cru
Sonhei que descascava um alho. Sonhei
que passava muito tempo descascando um mesmo dente de alho. Sonhei com
infinitas camadas de uma casca fininha cobrindo esse dente de alho grande e
maciço. Acordei e como uma boa ateia-que-gostaria-de-ser-cética-mas-é-carente-demais-para-desapegar-de-toda-possibilidade-mística
fui buscar o significado do sonho na internet. – pasmem, não era câncer! –
“Sonhar com alho significa que você está expulsando da sua vida as coisas
negativas.”
Acordei com a cama ensopada do meu
próprio sangue. Minhas coxas, ventre e mãos tingidos de vermelho escuro. Essa é
minha farda. Este é o meu disfarce. Tive vontade de sair de casa assim mesmo,
sem me lavar. Vestir a roupa por cima do cheiro de ferro secando na pele. Muitas
mulheres em situação de rua deixam o sangue de menstruação escorrer pelas
pernas porque isso afasta possíveis estupradores. O simples fato de eu estar
sangrando num fluxo quase constante e permanecer viva me empodera como se eu
pudesse derramar um fio de sangue que se impregna na terra traçando uma conexão
direta com o magma prestes a explodir em lava quente.
Menstruar antes da guerra fortalece meu
corpo. É como se eu me reiterasse a decisão de enfrentamento e meu corpo
abonasse: “pode ir, a trincheira está pronta!” Para a guerra não se ensaia, mas
pode-se preparar muito bem. Avalie todos os cenários possíveis, coloque-se nas
situações de maior estresse, simule o embate que te faria mais frágil. E só
então decida qual a melhor forma de ataque. Sua defesa, uma simples
autopreservação, pode ser a mais certeira estratégia de ataque. Silencie e
observe. O inimigo é apenas outro ser humano e isto deveria ser suficiente para
nos mantermos firmes e serenas.
Precisei romper com uma relação tóxica
que me sufocava a garganta há algum tempo. Expurguei do meu cotidiano a
presença do arquétipo personificado da misoginia. Que decepção... (talvez ele
tenha pensado) uma mulher rebelar-se assim, depois dos trinta, como quem não
quer nada, como quem não pensa no futuro, como quem decidiu tocar o foda-se
para toda representação machista em sua vida. Eu decidi tocar o foda-se. E
quero que se fodam sem nenhum prazer.
Permaneci no meu eixo. Do outro lado da
mesa havia uma mistura de carência e possessividade daquelas que podem resultar
numa reação do mais puro ódio. Mas permaneci no eixo, presa pelo peso do meu
endométrio descamado e vazante. Do outro lado da mesa uma mistura de ego e
patriarcado me observava à espera de algum vacilo. Permaneci no eixo.
Permaneço. Meu eixo se faz no movimento pois quem sangra sem morrer aprende a
se manter de pé na dor e na fraqueza com a sutileza da mais faminta
agressividade. Meu eixo me segura a carne presa aos ossos diante de qualquer
ameaça. Ninguém pode tirar do eixo uma mulher que dança a sua própria
liberdade.
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