das duas, uma.

Não sei o que viria primeiro, o toque do cimento frio na calçada ou o som de algumas dezenas de ossos quebrados. Não deve haver muito espaço pra dor, imagino que seja um lapso de plena lucidez no momento presente, numa forma de análise minuciosa, sem tanta empatia por si mesmo. Acho que só quando o quentinho do sangue chegasse acolhendo a pele do peito é que eu conseguiria me despedir da carcaça e me aventurar por algum nonada. 

Se eu não fosse habitada por tanta alteridade, eu já teria pulado faz tempo. 

Não tem nenhum sentido seguir na dor. Pelo menos não pra mim. Descobri meio tarde que o sofrimento não me dá prazer algum. Não fosse a minha alargada consideração pelos outros, eu teria me arrancado a vida lá atrás. Eu teria enfiado o carro no poste hoje cedo quando voltava do mercado. Eu teria cortado os pulsos na vertical e não na horizontal como fiz naquela noite. Eu teria injetado uma bolha de ar no peito só pra matar a curiosidade de que isso mata mesmo. Eu teria deixado ele me sufocar com uma sacola plástica naquela trepada.  

Mas eu teria mesmo é me jogado da janela de casa. Talvez um dia eu morra assim. Voando. Sempre tive uma atração quase irresistível pelo chão longínquo visto de algum andar alto. Mas sempre tive muito receio de não conseguir morrer. E esse fracasso eu não me permito. Se for suicídio, eu entrego de primeira! Sem segundas chances, sem falhas. Queda certeira. Igual o homem que vi se jogar do Viaduto do Chá no centro de São Paulo. Como o viaduto não tem altura suficiente pra matar um corpo que se jogue de forma displicente, o homem mirou o chão com a própria cabeça como se mergulhasse de um penhasco no mar aberto.  Calculou o ângulo da queda para não dar chance pra sorte. Entrou de cabeça no mundo por um buraco de carne e dele saiu rachando outro buraco na própria moleira. 

Talvez nosso problema seja justamente o endurecimento de nossas moleiras. 

Então, para não dar margem ao erro, planejei minha morte: Daqui a algum tempo - não agora porque ainda gosto do que vejo no espelho, mas antes de ficar com as bochechas completamente flácidas como estão as minhas tias - encontrarei algum penhasco tão alto que não haja possibilidade de sobrevivência. E vou pela primeira vez caminhar sem olhar o chão, e quando pisar em falso... 

Ou talvez eu morra dormindo, bem velha e bem amada. 

Das duas, uma.


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