sorte
Quando eu tinha uns 15, 16 anos raramente eu pagava pra entrar numa balada e quando entrava subia direto pro tal camarote porque os tiozões de 30, 40, 50, 60, 70 curtiam muito povoar a área vip de novinhas gostosas. Novinhas gostosas regadas a champagne. Mas tinha que ser novinha mesmo, dessas que quando eles davam umas passadas de mão ou enfiavam a língua lá no fundo da garganta, eles não estavam dando uns pegas na balada, eles estavam cometendo pedofilia. Sim. A gente queria muito acreditar que já era adulta e completamente dona das próprias vontades, mas Lolita não é um livro romântico, é uma história criminosa.
Numa dessas noitadas a primeira taça de espumante bateu de um jeito meio estranho. Comecei a tontear e minha amiga já estava se encostando no sofá dos caras completamente sonolenta. Que esquisito, a gente acabou de chegar, a gente tomou um refrigerante e nada de álcool antes, a gente fez um lanche reforçado pra não beber de estômago vazio, que estranho, a gente nunca sentiu isso, foi só uma tacinha… De repente apareceu a voz da minha mãe ecoando de longe na minha cabeça: “nunca bebe nada que tu não vejas a garrafa sendo aberta na tua frente (claro que nunca dei importância pra esse conselho). Que merda. A porra da champanhe tava batizada! Arranco minha amiga do sofá pelo braço sob gritos de protesto “estraga-prazeres" dos barbas grisalhas reis do camarote. Bando de velho safado! Arrastei a M. escada abaixo, pra fora da pista, até a calçada. Não estava mais conseguindo me segurar em cima do salto. Caralho, a gente vai cair desmaiada no meio da rua. Tirei os sapatos, duas quadras até minha casa, "vamo porra" gritava na cara da M. enquanto a obrigava a me acompanhar nessa corrida contra o tempo de efeito da droga. Passei o portão, alívio, território seguro. Deu nem tempo de tirar os sapatos da M. Caímos desmaiadas na minha cama. Acordamos 12 horas depois com o cheiro do almoço da minha mãe e meu irmão pequeno batendo na porta do quarto. "Vem comer, zuiii, vem!"
Eu e M. choramos em silêncio antes de levantar. E nunca contamos pra ninguém o que não aconteceu.
Sorte. Que sorte a gente ter escolhido ir naquela bem pertinho de casa. Que sorte não bater tão rápido em mim. Que sorte ninguém ter forçado uma carona pra nos ajudar. Que sorte não ter sido estuprada naquela noite.
Naquela época a gente contava muito com a sorte… Se fosse hoje… eu teria ligado pra polícia, eu teria feito um escândalo, teria filmado a cara de cada um pra depois expor até chegar no zap das respectivas esposas-mães-donas-de-casa, eu pagaria pra jogar a cara deles em todos os jornais mais sensacionalistas até acabar com a carreira e imagem daqueles cidadãos de bem. Mas com 15, 16 anos a gente pensa que se acha muito adulta, mas tá é morrendo de medo porque desde criança nos costuraram fundo nas estruturas que existimos apenas para agradar, tal como objetos sem vontade própria que devem permanecer à vista para serem usados conforme o desejo, e sem reclamar. E eu queria muito dizer que o medo sumiu com a idade, mas a verdade é que eu fui me descobrindo corajosa apesar do medo. A consciência do perigo fica cada vez mais evidente. É guerra.
Comentários
Postar um comentário