TRIPA DE VIRA-LATA
Tem algo de chorar na estrada que tira
a fragilidade do ato, como se o choro ficasse pra trás no meio do asfalto igual
um cachorro dilacerado por algum motorista displicente. Cair no choro dentro de
um veículo em movimento é muito menos vergonhoso, é muito mais rápido. Chorar
dentro de casa, num lugar fixo, em qualquer lugar que te mantenha escondida do
mundo sempre te faz mais vulnerável a se refestelar no vitimismo. É tão
confortável ser vítima. É tão confortável se apegar à impotência e à noção de
imutabilidade do próprio destino. Tem algo na estrada que cura como se não
houvessem limites para a minha capacidade de reinvenção, ou como se eu pudesse
jogar o passado pela janela como uma bituca acesa que vai se apagar no vento
antes de tocar o chão. Dá na mesma. Eu só quero pôr fogo em tudo e soprar essas
cinzas pra longe.
Nunca fui fã de rituais fúnebres,
talvez por não os compreender muito bem. Não vejo razão para gastar tempo
cerimoniando algo que já não existe mais. Não faz sentido. Mas nada faz sentido
de fato, a gente é que complica demais o mundo em busca de significados para
tudo. É preciso pôr fim aos ciclos de forma responsável e isso se traduz em
acolher um tempo alheio ao seu. É exaustivo, mas se você não o fizer será
taxada de covarde.
Covardia e coragem trocaram de lugar
muitas vezes na história. Sempre achei desconexas suas respectivas designações,
seus significados beneficiam demais quem ocupa uma posição dominante. Eu fui
violentada pra caralho e ainda me sinto culpada por querer sair correndo sem
olhar pra trás, sem pedir licença para abandonar quem me abusou. Eu só queria
desaparecer. Mas não sou fujona. Nunca fui. E não daria esse gostinho para quem
sempre me rotulou de objeto quebrado. Se eu pudesse escolher, não teria
cicatriz alguma, não foram elas que formaram meu caráter. Não vou romantizar
porrada. No entanto, posto que as tenho, escolho me remendar de um jeito que me
faça ainda mais forte, sou aquele vaso chinês estilhaçado que foi todo colado
em ouro. Minha vingança é ressurgir feito uma fênix à la Tieta do agreste. Se
não for assim, prefiro me juntar às tripas do vira-lata que esqueceu de olhar
para os dois lados antes de atravessar.
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